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terça-feira, 9 de junho de 2009

"Se Bette Davis flertasse comigo eu fugia pro inferno" por Gustavo Ferreira


Satan Met a Lady. She’s probably his mother. Esse foi o primeiro pensamento que minha cabeça cheia de cabelos brancos e experiência elaborou quando eu descobri que essa Lady do título é a Bette Davis. Entenda-se: o último filme com a Bette Davis que eu tinha visto era Wathever Happened to Baby Jane, que tem um título fantástico, um enredo fantástico, atuações fantásticas e em que a Bette Davis continua feia.
Ah, e eu nunca erro! O título é fantástico, o enredo é bom, as atuações são, ehm, ok, e a Bette Davis continua feia (talvez mais pra uma irmã que pra mãe, no entanto). Deus, como ela era feia! Tudo bem, no entanto, porque ela também sabia ser cínica.
Satan met a lady é a segunda adaptação do livro O Falcão Maltês, de Dashiell Hammett, para o cinema, e a primeira com som. Talvez por isso aproveite muito melhor as falas geniais de Sam Spade, que nesse filme, Deus sabe por que, se chama Ted Shane (sabe Deus, também, e todos nós, que rezamos muito e já fomos iluminados, que Spade é um nome muito mais másculo que Shane).
Obviamente a alteração nos nomes dos personagens não é o único defeito do filme, nem o maior, e sequer seria defeito se Sam Spade se chamasse Max Power ou Brillante Mendoza, por exemplo. A ausência de Bogart é. Bette Davis é suficiente para o papel, e Mary Wilson é a melhor secretária-inocente do mundo, mas Warren Williams não tem a neutralidade de Bogart estampada na cara. Ele é óbvio em seus doublecrossings, porque ele tem cara de doublecrosser com aquele bigodinho ralo (o Spade do livro, na verdade, é bem mais parecido com o de Warren Williams que com o de Bogart, mas Bogart fica melhor que qualquer personagem de qualquer livro quando ele é ele mesmo na tela).
Mas basta Shane abrir a boca uma vez e nós notamos o gênio que foi Hammett, e como é impossível estragar qualquer obra sua, mesmo que o falcão seja substituído por uma corneta. Por exemplo, quando seu parceiro Ames é assassinado num cemitério, sua demonstração de piedade não vai além de “Poor dear old Ames. The first time he ever did anything in the appropriate place.” Devo ressaltar que essa fala não está no livro de Hammett, que pode ser baixado ilegalmente em português no 4shared.com, e que nenhum Spade até hoje teve feições tão cheias de Vs quando o do livro (esses Vs justificariam o Satan do título do filme, já que Sam Spade, graças a eles, looked rather pleasantly like a blond Satan, nas palavras do autor. Também não me lembro de um Spade louro, mas certamente Leonardo Di Caprio não seria melhor que Bogart.
Obviamente esse filme não é melhor que O Falcão Maltês, e a corneta não é um bom substituto pro falcão, e Warren Williams não é tão bom quanto Bogart, mas esse filme, por ser de 1936, talvez, tem uma vantagem comparativa em relação ao mais genial de todos os film-noir de todos os tempos: ele não é exatamente um film-noir (embora eu admita que isso não é propriamente uma vantagem, já que noir é o gênero mais likeable do cinema. Está mais pra um álibi – “não sou tão bom quanto ele, mas também nem sou do mesmo gênero genial).
A proximidade com filmes da Screwball Comedy possibilitaram passagens memoráveis, como o diálogo entre Travers e Shane logo após o inglês revistar o apartamento do detetive. Ou o pedido de desculpas de Travers por trancar Miss Murgatroyd (Ive Archer no livro, Mary Wilson na vida real) no ármário e o fato de ela aceitar as desculpas e ainda chamá-lo de polido por dar-lhe flores como atonement.
Quer dizer, além de rirmos com o cinismo e os witticisms, como em There’s no place I’d rather see you than in the graveyard, a gente ainda ri (e mais alto) de gestos exagerados, vozes excessivamente agudas e situações inusitadas que quebram o noir do filme e dão a ele um ar mais leve, quase como uma comédia (não é a toa que Satan Met a Lady é considerado por aí como um filme proto-noir, não noir itself, e que o IMDB o classifica como parte dos gêneros comedy/drama/mistery.
Para finalizar (porque sou uma dessas pessoas que dão a esperança de que um dia vão parar de falar, especialmente quando falam tantas coisas aleatórias, como agora, por exemplo), digo que Bette Davis era uma idiota. Ela teve coragem de dizer que Satan Met a Lady foi o pior filme que ela fez, quando todos sabemos que Wicked Stepmother é consideravelmente inferior (embora não mereça o 2,8 do IMDB, c’mon, guys, é A MADRASTA, vocês nunca viram Sessão da Tarde?), apesar de falas como Vouyerism is a terrible affliction e You didn’t wake me up. I was reading a sexy novel.
(Considerando, no entanto, o talento dela pra escolher papéis interessantes, talvez esse seja, realmente um dos piores filmes que ela fez. Mas isso também não parece ser um grande defeito, vá lá).

Nota: três diabinhos e um tridente, de um Satanás possível.

"Giant Robot Kills Another Thousand, Says the Naked Female Samurai" por Gustavo Ferreira


Como todos sabem, Wilson Simonal é o maior intérprete da história da música brasileira, e um close second da música mundial, pertinho do Sinatra (talvez eu esteja empolgado porque quero ver o documentário sobre ele, que perdi quando passou no cinema). Por isso que eu me sinto à vontade pra citá-lo em relação a esse clássico que é o filme Zéro de conduite: Jeunes diables au collège e, especialmente, a seu diretor, algum francês, depois eu lembro o nome dele, que também nem é tão importante: NEM VEM DE GARFO QUE HOJE É DIA DE SOPA, meu bem.

De que me importa se seus personagens sobem no telhado, se o incêndio é no porão? Se eles acham que são malvados, revolucionários, anarquistas, que se pode dizer do cabelo de John Travolta em Grease? Mais: que dizer das roupas de Olívia Newton-John, do casaco vermelho (em preto e branco) de James Dean, da ferrari de Ferris? Grease tem mais maldade em um verso que todos os alunos do colégio interno do seu filme, Jean Vigo! Cada versão em forró de You’re the one that I want tem mais colhões que seus alunos mequetrefes, ora bolas!

Eu sei que you don’t wanna hear all the ‘orny details, mas sou um resenhista muito independente e vou contar mesmo assim, sem medo de perder a audiência (sou uma espécie de João Gordo da crítica cinematográfica): eu vi UM PINTO no filme. Quantos peitos você viu, você me pergunta, meio assombrado com essa revelação e temendo pelo pior. Como se franceses mostrassem seios assim, sem mais nem menos. Nem mulheres eu vi, Deus me acuda!²

Eu sei que muita gente lamenta por aí a sua morte precoce, Vigo, que te impossibilitou de continuar com uma carreira de muitos filmes – foram só quatro, tadinho. Mas o que eu lamento de verdade é que você não tenha vivido o bastante pra lamentar o que fez, pra pedir desculpas à humanidade por ter feito besteira e por estimular o cinema francês a gerar coisas como Godard. Se me permite um chute, acho que você não era má pessoa. Talvez aconselhasse Godard a largar o cinema e fazer crochê ou adestrar focas, profissões da mais alta dignidade, e talvez o impedisse de matar o tripé, esse elemento que você ainda utilizava com algum amor, nos poupando de tonturas e sofrimento.

Sobre o filme, especificamente, é interessante observar a necessidade de Jean Vigo de mostrar pra todo mundo que ele é filho de anarquista, e que – u-hul! – ele usa um TRAUMA DE INFÂNCIA como tema. Algo como “as crianças têm que mandar no mundo porque meu pai morreu” é a analogia mais freqüente no filme, e provavelmente a pior. É um fato incômodo que as pessoas realmente achem que o fato de o filme ser uma homenagem indireta ao pai dele seja, em si, algo bonito. É, no máximo, tão bonito quanto a Carla Peres posar nua porque gosta de Nutella. Bonito em si é o amor dele pelo pai, o que não justifica que ele faça um filme ruim e seja elogiado por aí.

Outro grande problema desse filme já tão problemático é o gênero. É o tipo de filme que passa uma mensagem, se analisada, muito divertida: crianças tomando conta de um internato/orfanato e crucificando um adulto? I’m all in for it. Tratar uma comédia como algo poético? Stop the shit and die, Vigo. Oh, you did it already. Além disso, Vigo resolveu terminar o filme dois minutos depois de começar a ação, e quinze horas de simbolismos e surrealismo bobos depois do início do filme (e a ação poderia até ser interessante, como não?).

Eu já disse várias vezes – e repito quantas forem necessárias – que todo o gênio de Salvador Dali estava na comédia. Ele tem um quadro chamado Natureza Morta-Viva e ninguém relaciona isso aos filmes de zumbi? Gimme a break, willya? Parem com toda a solenidade se querem ser moderninhos, senhores franceses, ou rompam com a modernidade se querem ser solenes. O filme de Vigo, graças a esse tom meio solene dado às brincadeiras (e quando ele tenta brincar ele não sabe, fica dizendo que a bola é dele e que todos têm que jogar do seu jeito), é tão ruim quanto qualquer outro filme francês (a não ser pelo fato de que Jean Vigo ainda é do tempo em que os descendentes de Obelix usavam tripés, e a imagem ficava fixa, bonitinha). É triste observar que desperdício foi Vigo.

Porque ele era um bom diretor, não duvido. Algumas cenas são realmente agradáveis, quase bonitas, mas ele desperdiçou qualquer talento que tinha mostrando pintos (talvez seja a hora de revelar que o pinto nem foi tão horrivelmente explícito assim – era um pinto de um menino pequeno, inocente, exposto de longe, embora, claro, um pinto seja sempre um pinto) e sendo mais solene que a rainha da Inglaterra em jantar de gala. Gente, Shakespeare viveu no século XVI e já fazia sucesso com piadas, por que mudar a fórmula? Até Hamlet é leve em alguns momentos, pelo amor de Santa Joana! Até Titus Andronicus !

Enfim, como todas as vezes em que vejo alguém sendo tão não engraçado – pior: tão propositalmente não engraçado – não consigo terminar o filme sem imaginar que, a qualquer momento, um ninja vai aparecer, liderando uma multidão de zumbis, e destruir o mundo. Ou um dos meninos vai encontrar um mapa do tesouro e todos se tornarão piratas, sendo um deles caolho e outro perneta. Ou ainda que eles são todos super-sentai, e que juntos formam um andróide assassino gigante. Mas nada nunca acontece de bom em filmes franceses, e eu fico sempre ali, no cantinho da sala, querendo dormir.

NOTAS:

1. O título deste texto contém quatro formas básicas de fazer um filme interessante, podendo ser misturadas de diversas formas. A minha favorita é essa que já usei, e ela está registrada na Biblioteca Nacional. Se tivesse utilizado qualquer uma delas em Zero de Conduta Vigo seria um diretor mais interessante.

2. Nota completamente aleatória em crítica moral e conselho aos franceses: quando vocês tiverem a oportunidade de mostrar a Mônica Bellucci nua, franceses, mostrem a Mônica Bellucci nua. Por favor, não ocultem os seios dela em cenas de estupro – e, especialmente, não façam isso enquanto exibem pintos digitais. É constrangedor e negativo pra sua imagem, and more so se considerarmos que o ator era provavelmente castrado, o que os levou a inventar um pinto pra ele (refiro-me a Irréversibile, ignorante!).

sexta-feira, 3 de abril de 2009

"Eu não amo Joana D’Arc, mas ela continua apaixonada" por Gustavo Ferreira


Quando Paulina Martins substituiu Paola Bracho, Carlos Daniel e todos os outros (tirando a Estephanie, a megera ciumenta) perceberam uma forte melhora. A maquiagem ficou mais discreta, ela parou de ameaçar a pobre Lizete com o colégio interno e aprendeu a sorrir. Dessa forma prova-se que usurpadores nem sempre são maus. O problema começa quando você tenta usurpar o lugar de alguém não tão mau quanto Paola, e, arriscaria, quase tão bom quanto Paulina – a saber, Jesus Cristo.


Esse foi o erro de Joana D’Arc – esse e aquele corte de cabela terrível, e aquelas roupas masculinas, e aqueles olhos deliberadamente esbugalhados para dar a sensação de que ela saiu agora de uma sessão de Carrie, a Estranha, e está com medo de pregar os olhos, exatamente como eu fiquei quando vi o filme.


Enfim, A Paixão de Joana D’Arc – filme tão antigo que teve como intérprete do papel-título a filha legítima da francesa mais famosa do mundo – falhou sob todos os aspectos na tentativa de criar a imagem de uma profetisa ou de emocionar, e ela ficou apenas com aparência de louca – como o Bruno Gagliasso no papel de Tarso na novela das oito.

Mas a maior falha da vida de Joana D’Arc foi, sem dúvida, participar de um filme mudo. Tantas vezes ela tentou falar, mas a ausência de um microfone engoliu o movimento de sua boca em legendas curtas, coitada, transformando sua defesa em vácuo, que talvez os jurados mais bem-intencionados tenham perdido a boa intenção junto com a paciência desperdiçada na leitura labial. Espectadores mais atentos conseguem, inclusive, ver que a pobre Maria Falconetti balbucia a famosa canção, tão cristã, da Amelinha, “Foi Deus Quem Fez Você”, que indubitavelmente a eximiria de todos os pecados e evitaria que fosse queimada. Mas – oh, destino – ela não foi ouvida!

Para provar que a mudez do filme prejudicou a coitada da mártir, comparemos com 12 Angry Men e toda a eloqüência triste de Henry Fonda, que salva o pobre do acusado da forca simplesmente alegando que não se pode ter certeza, que there’s a reasonable doubt (favor evitar comparação com To Kill a Mockingbird, porque um juiz que não acate qualquer argumento – QUALQUER ARGUMENTO - de Atticus Finch, mesmo com aquela voz tão profunda, não é digno de qualquer respaldo).

A Paixão de Joana D’Arc prova, devo acrescentar em digressão automática, duas coisas, sendo 1) filmes falados são mais legais, e 2) franceses são feios como o diabo, e as francesas se parecem com os franceses – Catherine Deneuve é uma marroquina disfarçada, suponho.
Mas, se Joana D’Arc era inocente das acusações que a levaram à fogueira, ela carrega em sua alma, no inferno, um peso maior que a tentativa de ser profeta: ela destruiu a carreira de Mark Twain, que gastou 14 anos de sua vida maravilhosa, cheia de Huck Finns, de Rãs Saltadoras e de Sawyers, com essa vadiazinha francesa que tem como mérito único ter liderado um exército (perdedor) de um país (perdedor) quando ainda vivia seu 17º perdido ano de vida – e o fato de ter sido a primeira pessoa a fazer isso em toda a história só seria realmente um mérito se ela tivesse vencido a Inglaterra. Se Joana D’Arc não tivesse existido, sabe Deus com quantos Huck Finns seríamos presenteados por um Twain ainda são, sem achar que sua pior obra – Personal Recolections of Joan of Arc – era, na verdade, sua obra-prima.

Quanto ao filme, ele tem absolutamente nada de novidade, a não ser os closes infindáveis que um dia gerariam as novelas da Globo – mérito? O enredo corta toda a história do julgamento, e não imaginamos em momento algum o que a fez sentar no banco dos réus – insinuam que ela está ali porque é meio lésbica e endemoninhada e blasfemadora, mas ignoram os crimes de guerra – talvez porque, na época, ainda não tivessem sido declarados os Direitos Universais do Homem, but who the hell gives a damn?
Agora, numa tentativa desesperada de explicar o filme e entregar tudo o que acontece, permitam-me:

Juiz pede que Joana abjure -> Não abjura -> Juiz insiste -> Abjura -> Juiz fica feliz -> “lol, tô brincano, abjuro naum”, diz Joana -> Juiz fica triste -> Juiz a sentencia à fogueira -> Joana morre -> Fim.

O que mais me incomoda na história de Joana D’Arc é, imagino, a incrível ausência de qualquer heroísmo real. Todo o heroísmo é do tipo after life, do tipo “amo a Deus sobre todas as coisas, e darei minha vida pra provar” – mas ela não dá a vida numa Cruzada ou numa luta contra os mouros. Ela dá a vida num tribunal, contra a própria representante de Deus na Terra, e quer ser católica. Faz-me rir, Joana. Faz-me rir muito sobre as cinzas do seu corpo.

P.s.: Se pensarmos numa alegoria mais interessante, em vez de Paulina e Paola, talvez caiba melhor o paralelo Rutinha e Raquel, sendo o espectador o Tonho da Lua (um retardado, que podia empregar seu tempo assistindo a Charlotte’s Web, que é muito mais bonito, e que tem uma morte muito mais tocante e heróica de uma aranha muito mais feminina que a Joana D’Arc do filme, porque, céus! – aquilo é quase a Maria Moura!