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sexta-feira, 24 de junho de 2011

"A felicidade não se compra", por Mirella Britto


Um filme de mais de meio século, dirigido por Frank Capra em 1946 e baseado no conto “The Greatest Gift”, de Philip Van Doren Stern, “A felicidade não se compra” continua ainda hoje em quase todas as listas de melhores filmes do cinema e é um dos mais assistidos no natal em muitos países.

George Bailey (James Stewart) parece estar em apuros, pois chegam aos céus as orações de muitos de seus amigos e familiares. Deus resolve mandar um anjo à terra para ajudá-lo, dando início a um dos maiores flashbacks da história do cinema. Nós e o anjo passamos a conhecer a vida de George e ter a certeza de sua bondade. Essa grande certeza vai sendo tecida por pequenos detalhes, mostrando como coisas sem importância do dia-a-dia vão construindo o destino de todos. Contudo, o que está diante de nós é um homem em desespero pela possibilidade de perder tudo que construiu ao longo de sua vida: sua firma, sua família, sua honra. Em tal situação, ele só consegue ver uma saída: morrer. É aí que entra em ação o anjo Clarence, que além de evitar a morte de seu protegido, pretende lhe tirar a idéia de que ele vale mais morto do que vivo.

O anjo da guarda realiza seu trabalho colocando George diante de um futuro alternativo, uma espécie de realidade paralela, onde é possível ver como seria o mundo se ele nunca tivesse nascido. Temos aqui o fantástico nascimento de uma das poderosas mágicas do cinema: tornar concreto ‘o que poderia ter sido e que não foi’... Refletir sobre as possibilidades de cada ação nos coloca diante de uma grande angústia que não podemos suportar, precisamos de alguém, de um anjo! Nesse caso, o anjo é o próprio cinema que nos segura pela mão e nos leva com segurança por onde nossa mente temia flanar. De tão fantástica, esta ideia passa a ser recorrente no cinema, basta lembrar alguns filmes como “De volta para o futuro”, “Efeito Borboleta” e “Corra Lola, corra”. Todos estes seguem e desenvolvem a grande descoberta de Capra de que só o cinema tem o poder de descortinar as possibilidades de cada momento da vida; só o cinema (como um anjo) pode nos dar garantia de que sobreviveremos quando
começarmos a pensar ‘mas, e se’...

O filme “Click” (2006) de um outro Frank (Coraci) parece uma espécie de “remake moderninho” do nosso “A felicidade não se compra”, onde um suposto anjo traz um controle remoto e o personagem principal pode escolher os momentos que acha importantes e acelerar os chatos. O controle remoto dá o tom da diferença entre as épocas e faz o trabalho da imaginação. No final, parece que estamos diante da mesma percepção: o que realmente importa na vida são os pequenos momentos, as pequenas conquistas, amigos e principalmente a família. Mas, pensando em “Click”, o fascínio de “ A felicidade...” desponta. O primeiro é tão entediante quanto o tédio que seu personagem quer evitar, o tom de comédia tenta esconder sua superficialidade. Em “Click” não há grandes sentimentos, só aquele que nos leva a zapear. Assistir “Click” me deu a sensação de um déjàvu entediado, mas também revoltado, aquela revolta que sentimos quando nosso filme querido é pobremente imitado. A experiência do filme de Capra é completamente diferente porque nos coloca diante de um sentido profundo de humanidade e de bondade, um sentimento que parece deslocado de nossa época mas que ainda queremos e precisamos.

“A felicidade não se compra” não é um filme para o natal, é um filme para se assistir sempre, especialmente quando começamos a nos sentir contemporâneos dos ‘Clicks’ da vida.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

"Aconteceu naquela noite" por Diogo Didier


“Aconteceu Naquela Noite” (It Happened One Night, 1934) conta a história de Ellie Andrews (Claudette Colbert), filha mimada de um banqueiro, que foge do seu pai para se encontrar com o seu “verdadeiro amor”. Nessa fuga, ela termina conhecendo um jornalista, Peter Warne (Clark Gable). Esse encontro cheio de humor muda, completamente, a vida dos protagonistas.

O filme dirigido por Frank Capra, cineasta que fez história no cinema hollywoodiano, foi o primeiro a conseguir os cinco prêmios mais importantes do Oscar – melhor filme, diretor, roteiro adaptado, ator, atriz. É, também, o grande sucesso do gênero que serviu de influência para as atuais comédias românticas, o Screwball Comedy.

A narrativa começa com Ellie viajando no barco do seu pai. Ela está fazendo uma greve de fome, pois o pai não quer que ela se case com o homem que ela ama, um piloto famoso. O primeiro diálogo que ela trava com o pai é repleto de insultos de ambas as partes, algo bem aceitável atualmente, mas, para aquela época, é estranho, e engraçado, ver a filha chamando a família do pai de idiota. Os insultos, aliás, compõem boa parte dos diálogos no filme.

Ellie se joga do barco e vai em direção a rodoviária, enquanto seu pai destaca um grupo de pessoas para procurá-la. Na cena seguinte, ela compra o bilhete do ônibus para Nova York e o outro protagonista é apresentado. Peter Warne, o jornalista, está bêbado e falando ao telefone com o seu ex-chefe. Pela conversa, entende-se que ele acabou de ser demitido. Ele entre no ônibus para Nova York e, depois de uma série de situações inusitadas se senta ao lado de Ellie. Começa aí uma briga de gato e rato, pois ela está determinada a seguir sua viagem sem perturbação, e ele se satisfaz em vê-la irritada. Há um certo interesse da parte dele, mas nada muito intenso, ainda. A relação deles segue com Peter tentando ajudá-la, mas Ellie sempre recusando. Ela tenta acreditar que consegue fazer tudo sozinha, mas percebe que não é possível. Isso fica evidente em uma cena que o casal está no meio do mato e Peter a deixa só por alguns instantes.

Em certo momento, Peter descobre que tem um furo jornalístico que, certamente, vai empregá-lo de novo. Ele vê que Ellie é a filha que fugiu do pai milionário. Assim, ele diz que está ajudando-a por puro interesse profissional.

As melhores cenas do filme se passam a partir do momento que eles fingem que são um casal de verdade. Já é claro que eles se amam, mas não podem ficar juntos, pois são de mundos diferentes e ela está comprometida. Desse modo, além de um lençol, a “Muralha de Jericó” – comparação usada por Peter –, criando uma barreira entre as suas camas nos quartos em que dormem para dar privacidade a cada um, há todas essas questões morais.

Há, ainda, meia dúzia de complicações e, perto do final, a história parece não querer (ou não saber como) acabar, pois os personagens não param para conversar e esclarecer situações, aparentemente, simples. A narrativa, assim, termina perdendo a sua veia cômica que dá espaço às cenas melodramáticas. A impressão que fica é que a duração do filme extrapola o seu tempo real – 105 minutos.

Por isso, esse filme ainda carrega um pouco do grande problema das Scewball Comedies – bem menos do que outros filmes do gênero como “Levada da Breca” (Bringing Up Baby, 1938): as situações se prolongam demais e fórmulas são repetidas dentro de uma mesma cena. Há, ainda, cenas que são desnecessárias para a narrativa como um todo e atrapalham o seu desenvolvimento porque, simplesmente, fogem da história e não acrescentam nenhum ponto importante. Esse seria o caso do momento em que estão todos no ônibus cantando.

Apesar de o roteiro escorregar no final, a fórmula de humor bem elaborada do início
e a excelente atuação de todo o elenco principal fazem com que quem assista a esse filme, mesmo que não goste do gênero, tenha bons momentos de risada garantidos. Algumas cenas são realmente impagáveis como a que Peter está na estrada tentando mostrar a Ellie como conseguir uma carona. Além disso, o uso do som compõe, também, os pontos positivos do filme. A ambiência sonora é bem elaborada e esse som ambiente é bem mixado aos diálogos. Vale lembrar que o som sincronizado só estava no mercado cinematográfico há 7 anos. A falta de música extra-diegética pode causar estranhamento aos mais atentos, mas não faz falta nessa obra. Há, ao invés disso, canções que os personagens cantam em momentos de grande felicidade o que é interessante, pois as canções só vão aparecer com predominância no cinema duas décadas depois (houve exceções, principalmente, nos musicais).