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sábado, 13 de junho de 2009

"Julie Andrews" por Rafaella Costa


Julia Elizabeth Wells, ou apenas Julie Andrews, se tornou um dos mais importantes nomes da história quando se trata de verdadeiro talento. Nascida em 1935, Surrey, Inglaterra, mostrou desde seus 7 anos o potencial impressionante de sua voz. Começou a ter aulas de canto e a se apresentar com sua mãe, a pianista Barbara Wells, e seu padrasto, Ted Andrews, cantor e artista de Vaudeville.

Com apenas 12 anos já cantava árias como “Polonaise” da ópera Mignon e no ano seguinte se apresentava para nada menos que a Família Real. Julie não parecia muito convencida que trabalhar desde cedo lhe serviria de alguma coisa, exceto pelo dinheiro que ajudava a família. Numa entrevista em 2007 ela comentou: “... nada é um completo desperdício. Qualquer coisa que você faça eventualmente pode lhe ser útil. Eu me lembro dos dias que fazia teatro de Vaudeville ao redor da Inglaterra e ficava me perguntando o que estava ganhando com aquilo, mas eu estava aprendendo a lidar como público e 20 anos depois, eu fiz Mary Poppins.”. E fez história. Não demoraria muito a estrear na Broadway com a versão americana de “O Namoradinho” (The Boy Friend, 1954) no papel de Polly Brown e logo depois como Eliza Doolittle em “Minha Bela Dama” (My Fair Lady, 1956).

Em 1960, após o papel da rainha Guenevere em Camelot, Julie foi chamada para seu primeiro papel mais marcante nos cinemas: interpretar a babá Mary Poppins, na mais nova produção da Disney na época, no filme homônimo em 1964. O papel rendeu-lhe merecido Oscar ao marcar sua voz belíssima nas canções do filme e emocionar a todos com seu carisma e talento diante das telas. Entre seus papéis musicais no cinema, o absolutamente mais marcante seria ao interpretar Maria em “A Noviça Rebelde” (The Sound of Music, 1965). Julie ainda seria Millie Dillmount em “Positivamente Millie” (Thoroughly Modern Millie, 1967), Gertrude Lawrence no musical/biografia “A Estrela” (Star!, 1968) e Lili Smith em “Lili, Minha Adorável Espiã” (Darling Lili, 1970). Além de musicais Julie atuou em comédias, entre elas a divertida “Vitor ou Vitória?” (Victor/Victoria, 1982), em dramas como Havaí (Hawaii, 1966) e suspenses.

Até hoje essa fantástica atriz continua impressionando a todos com seu trabalho, sendo um exemplo de postura, talento e dedicação. Julie é capaz de em menos de duas horas de projeção emocionar com sua sensibilidade e fazer rir com seu humor infalível. Essa é a beleza do trabalho dessa memorável artista que marcou crianças e adultos, e continua prometendo surpreender todos os públicos em qualquer que seja o gênero. Julie Andrews é uma artista completa.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

"Jean Vigo" por Rafaella Costa



Jean Vigo nasceu em 26 de abril de 1905, em Paris. Teve uma infância difícil, sempre com saúde debilitada. Seu pai faleceu misteriosamente numa prisão quando Vigo tinha apenas 12 anos e sua mãe o abandonou, deixando-o passar por vários internatos.

Em “Zero de Conduta” (Zero de Conduite, 1932) onde trabalhou com o fotógrafo Boris Kaufman, é clara a influência de sua vida em sua arte. O filme trata das dificuldades enfrentadas pelos garotos de um internato. Na bela cena dos meninos e os travesseiros, vi de alguma forma refletida ali a minha sensação da eternidade da infância. Um momento representando na desaceleração do tempo o lirismo da infância atingindo seu ponto mais alto. Aquela sensação de liberdade inocente que só se tem quando, ainda crianças, não somos atingidos por qualquer dificuldade que não possa ser vencida pela inocência de um olhar ou virtude de um sorriso.

A história de “O Atalante” (L’Atalante ou La Chaland qui Passe, 1934), seu primeiro longa-metragem, me atraiu de primeira por uma particularidade curiosa: um jovem casal recém-casado partindo em um barco para viverem suas vidas juntos pelos canais de Paris. Uma história que se comparada a outras do gênero, se difere logo por seu início, onde normalmente seria o fim de tantas delas. As dificuldades de adaptação a uma nova vida, dribladas com a aceitação e admiração, é um assunto pouco explorado pelos filmes que se detém a mostrar a vida de duas pessoas, as dificuldades pelas quais passa seu relacionamento e por fim o casamento como “o fim” dos problemas. No entanto, Vigo ultrapassa esse pensamento e com realismo somado a sua profunda sensibilidade, é capaz de mostrar em “O Atalante” os sentimentos acima da história e dos próprios personagens, sem desmerecer obviamente nenhuma dessas duas peças importantes do filme. “Acho que O Atalante é subestimado por verem nele um tema menor, um tema “particular” que se opõe ao grande tema “geral” de Zero de Conduta. (...) Qual era o segredo de Jean Vigo? É provável que vivesse mais intensamente que a média das pessoas.” escreveu Truffaut a respeito do filme. Segundo o próprio Truffaut, Jean Vigo consegue unir duas grandes tendências do cinema: o realismo e o esteticismo.

Em seu quarto e último filme, Vigo contou com a participação do memorável Michel Simon como Père Jules, o velho lobo-do-mar, que também atuou brilhantemente como o juiz de “A Paixão de Joana D’Arc” (Dreyer, 1928) e como o criado em “Tire-au-Flanc” (Renoir, 1928), e com a bela Dita Parlo no papel de Juliette.

O cineasta por diversas vezes tinha seus filmes censurados. Ao falecer precocemente aos 29 anos, próximo à estréia de “O Atalante”, não teve tempo de impedir que seu filme fosse cortado pelos produtores.

Apesar de sua curta filmografia, Vigo sempre irá ser admirado por seu trabalho belíssimo e por sua simplicidade carregada de sentimento. Seu realismo poético e seu lirismo são marcas que o fazem ter o merecido reconhecimento como o “Rimbaud do cinema”.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

"Entreato" por Rafaella Costa


1924, Champ-Elyssés, Paris. Após a apresentação do balé sueco Relache, o público foi apresentado ao movimento dadaísta na tela. Organizado pelo pintor Francis Picabia, “Entr’acte”, de René Clair, foi recebido com assobios, gritos e, finalmente, aplausos.


O dadaísmo nasceu em 1916, em plena Guerra Mundial. Os princípios da nova vanguarda trazem no ilógico e espontâneo certo espelho crítico de uma realidade incômoda. O movimento manifestou-se nas artes plásticas, literatura, música, mas foi em René Clair que o dadaísmo no cinema assumiu sua postura. Entre as propostas trazidas pelo Dadá, segundo seus próprios seguidores, estava em ver que o principal problema de todas as manifestações artísticas era que elas almejavam algo que era impossível: explicar o ser humano.


Escritor e cineasta, René nasceu em 11 de novembro de 1898, Les Halles, Paris. Filho de comerciantes, começou sua carreira como jornalista e então tentou ser ator. Ainda trabalhou como assistente de direção de Jacques de Baroncelli e roteirista. Em 1960 foi eleito para a Academia Francesa. Sua esposa, Bronja Clair, afirma que René era muito reservado e falava pouco sobre si. Após fazer um filme que não foi bem recebido na França, mudou-se para a Inglaterra, mas nunca se esqueceu de suas origens. Era apaixonado pela França. Em sua fase comunista, recebeu convites para filmar na Rússia, porém nunca os aceitou. Seu primeiro filme “Paris Adormecida” estreou no mesmo ano que “Entr’acte”. René não era muito bem recebido pela crítica e os jornais davam pouca importância às suas premiações.


Mas sua obra “Entreato”, como é conhecida aqui, apesar de por muitos ter sido considerada sem valor ou simplesmente ilógica, deixa claro o talento de René. Com participação dos radicais da época como Marcel Dunchamp e com música de Erik Satie, este filme não apresenta questionamentos diretos, mas qualquer que seja a época em que for visto, se mostrará cheio de novas perspectivas. Como a cena em que homens e mulheres correm atrás de uma espécie de carro que leva um caixão em velocidade. Como não refleti-la como metáfora de que todos correm para o fim de suas vidas e se esquecem das pequenas coisas que estão à sua volta? Tudo o que podiam ver era seu próprio objetivo, não dando valor ao caminho que percorriam para consegui-lo, que muitas vezes se revela em nossas vidas de muito maior importância. Ao final do filme, quando o “suposto morto” levanta-se do caixão e “apaga” cada um dos personagens que corriam, é possível questionar-se se “correr tanto” irá nos levar a algum lugar, se não levar a todos para o mesmo.


Inúmeros questionamentos sobre a vida, morte, sociedade, arte, podem ser refletidos a partir da obra de René. Ele propõe ver o mundo de outra forma. A beleza de “Entreato” está em sua forma poética, revelando não só as propostas do dadaísmo, mas também ilimitando as perspectivas do espectador. É a sua forma de mostrar num aparente “nada”, um tudo, que o faz ser tão antigo e tão atual. Em 15 de março de 1981, em Paris, a cidade despede-se do cineasta. Além de sua filmografia, René Clair deixou para o mundo um desejo de que os jovens viessem a amar seus filmes e que buscassem aprender com eles.