domingo, 17 de abril de 2011

"O homem com a câmera na mão", por Débora Bittencourt




Com poucas exceções que deram ênfase à problemática pessoal, como Evegine Bauer, o cinema soviético foi fortemente marcado pelo seu contexto histórico, voltando-se ao discurso social, contando e defendendo a Revolução Russa. Baseando-se na dialética hegeliana, foi também revolucionário ao utilizar o princípio da montagem, criado por Kulechov e consagrado por Einsenstein, teoria que viria a influenciar todo o cinema posterior.

Dziga Vertov, com o Kino-Pravda (cine-verdade) e Kino-glaz (cine-olho), aliou o discurso comunista e a teoria da montagem à “rejeição total da representação burguesa”, criticando a ficção e dando à câmera o papel de olho perfeito em seus filmes documentais.

Embora lide com a realidade cotidiana, ‘O homem com a câmera na mão’ difere das primeiras experiências cinematográficas dos irmãos Lumière, não só pelas técnicas desenvolvidas, mas pelo conceito criado por essa técnica. Quando assistimos à ‘Chegada do trem à estação’, vemos a realidade sem interferência do criador. Em o ‘O homem...’ há também uma cena de chegada de um trem, porém a câmera o filma de frente (dentre outros ângulos) enquanto um homem nos trilhos o filma, a montagem propõe o seu atropelamento, mostrando rapidamente seus pés agonizando fora dos trilhos. Ou seja, as imagens são reais, mas adaptadas através da montagem para um sentido pré-determinado pelo diretor.

A câmera é mostrada constantemente durante o filme (assim como o cameraman e suas peripécias para obter tais imagens), inclusive detalhes como o foco da lente e da imagem, enquanto uma mulher ao acordar enxuga os olhos, numa associação ao despertar e claro, da câmera ao olho humano. Há essa linguagem metalingüística forte, vemos pessoas diante da tela, o método do trabalho, suas condições de produção, referências à sua história: o cinema falando de cinema.

A música encaixa no ritmo do movimento das coisas, acentuando a idéia do cotidiano, do desenvolvimento, do ritmo da vida e das pessoas. De uma maneira geral, Vertov propõe o enaltecimento do mundo comunista, há uma forte referência ao trabalho, aos meios de transporte, à cultura presente na sociedade. Além disso, ao filmar a produção, a origem das coisas, mostra às pessoas que já que são elas que produzem, são a elas que pertencem. Acusado por alguns de mera propaganda soviética, o realismo socialista de ‘O homem...’, “um filme sem intertítulos, sem cenário, sem sets, atores, etc”, propõe uma filosofia sobre fazer cinema que não deve ser descartada.

Vertov defendia que a câmera só deveria filmar o que existisse independentemente dela. Em ‘O homem...’ vemos as pessoas que assistem e vivem o cinema, sendo não personagens, mas co-autoras da obra, como podemos ler no início do filme: “Este trabalho experimental tem por finalidade criar uma linguagem absoluta e verdadeiramente internacional do cinema, baseada na sua total separação da linguagem teatral e literária.”

Um comentário:

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